domingo, 14 de dezembro de 2008

Poema - Renegados (Partes I, II e III)

Parte I

Da estante
ela tira um livro de Wallace
lê-o em camara lenta
como um filme de Oliveira

E pensa que nada será melhor
tal como um peixe no isco
do grande oceano
sem controlo

A pose diletante
o cheiro a menta
dos cigarros Dunhill
absorvem a sua dor

Nada mudará
o seu problema existencial
e o seu nome num ficheiro policial
e a cara no chão

O que ontem era mau
é hoje pior
nada vale apena
é tudo dor

A pose de mulher fatal
é apenas fingida
a dor
segue-se á ferida

Tudo
mas tudo
será atirado para trás
a guerra foi perdida

Farta de noites mágicas
de ordens avulsas
de cenas trágicas
e de constantes repulsas

Ela terá a chave
para abrir ou fechar
a porta
mas é tarde demais

E um dia
quando ela partir
colocarei uma flor
na sua campa

Á sua memória
também eu posso tombar
porque a dor
não tem eleitos

e tal como ela
sou um renegado

Parte II

Os seus olhos castanhos
estão dilacerados
não consegue dormir
e fechar os olhos inchados

Pela janela
vê o mundo exterior
e sente a insónia
e sonhos tamanhos

É mais fácil
vir
do que ir
e perder a dor

Em pensamentos profundos
reflecte
sobre este e outros mundos
onde estará sempre sozinha

E lê mais um livro de Wallace
tirado da estante
e percebe o aproximar
do fim

Os seus olhos vão perdendo
o brilho
tudo parece distante
e ausente

Ela percebe
que nada percebe
e com ela
eu morrerei um pouco

Perdido o jogo
entendido o logro
deste mundo louco
acabou

E digam o que disserem
somos renegados
e toda a queda
provoca dor

Parte III

Fecha a boca
não fales
que não te ouvem
e sente a dor

Cerra os punhos
não batas
que não lhes doi
e sente a dor

Abre os olhos
vê o mundo exterior
tal como uma criança
que já não és

Abusaram de ti
e implorastes por mais
ninguém é culpado
é o teu fado

Nada fará sentido
és um naufrago perdido
tudo é um esboço
nada vale o esforço

Não há redenção
apenas a dor
da confirmação
da condenação

Podes implorar
ninguém te ajudará
ninguém se orgulhará de ti
tudo está á venda

E mesmo para um renegado
tal como tu
é hora de dizer
Adeus...

Escrito entre Fevereiro e Junho de 1994

Sem comentários: