quarta-feira, 25 de março de 2026

Muito Bom (Não Se Deixem Enganar Pelo Título)

Pedro Mexia no Expresso (dia 20 deste mês)  

Pornografia

Pornografia

Pedro Mexia

Os Cure tendem a ver os objectos como aguarelas que se desfazem

19 março 2026 22:57

Apornografia ajuda. Não a carnavalização da anatomia e do desejo, mas uma outra forma de trazer à luz o obsceno. Com tanta alegria oficial, exibicionismo, hedonismo, já poucos se atrevem a enfrentar o sentimento trágico da vida. Seja a melancolia e o luto, seja a confusão, o medo, o desespero. Isso constitui hoje uma espécie de pornografia, porque propõe uma imagem alternativa, admite que não somos fantásticos, que o mundo nos decepciona, que o sofrimento é a única certeza. Não sei porque é os Cure intitularam o seu quarto álbum “Pornography”, mas admito que fosse para opor esse discurso “pornográfico”, o da tragédia, à pornografia da felicidade.

“Seventeen Seconds” (1980), “Faith” (1981) e “Pornography” (1982), os álbuns mais consensuais da banda, formam uma trilogia de música depressiva, mais do que deprimente. Porque o inegável negativismo destes discos não deixa em baixo quem os ouve; é mais provável que quem os ouve procure a pornografia do sofrimento, mais do que a pornografia da felicidade, fazendo com que as canções funcionem como empatia e companhia. Os saturninos são estóicos, mas não é grande sacrifício suportar o gelo quando se é esquimó.

“Pornography”, álbum de 1982 da banda The Cure

“Pornography” foi o álbum que mais ouvi nos últimos meses. Podia alegar, e alego, que gosto das melodias e harmonias dos Cure, da dinâmica instrumental, da conjugação entre o baixo ominoso e a percussão intensa, da reverberação atmosférica, dos devaneios vocais. Mas aprecio sobretudo a nitidez desfocada dessas canções, à imagem da fotografia na capa do álbum. Como é que uma imagem desfocada pode ter nitidez? Isso é como perguntar como é que um objecto pode ser representado pelo impressionismo, o expressionismo, o cubismo, etc. Além da materialidade reconhecível das coisas, há uma distorção propositada que imita a maneira como um “eu” individual vê um objecto. E os Cure tendem a ver os objectos como aguarelas que se desfazem.

O catálogo da banda é um catálogo de pesadelos ou projecções. Quando a primeira canção de “Pornography” começa, memoravelmente, “It doesn’t matter if we all die”, toda a gente estranha o “it doesn’t matter”; mas a noção de que vamos todos morrer, isso não nos apoquenta, continuamos como se não importasse. Será aquele “if we all die” a consequência de uma acção específica e evitável? Mas então o “it doesn’t matter” é niilismo ou truísmo? Enquanto ‘One Hundred Years’ e ‘A Short Term Effect’ descrevem as dores do mundo, à Schopenhauer, e o efeito dessas dores, a marcial e inquietante ‘The Hanging Garden’ desvirtua uma das “maravilhas da Antiguidade” (os jardins suspensos de Babilónia), deambulando entre uma mascarada onírica e animalesca. E no fim podemos imaginar que “hanging” vem de “forca” ou “cadafalso”, que estivemos no “jardim dos enforcamentos”. Em ‘Siamese Twins’, por sua vez, o verso “I chose an eternity of this”, acentua a existência de escolhas, mesmo quando negamos que sejam escolhas, e a canção não progride musicalmente, como se fosse um castigo feito de imagens. A extraordinária ‘The Figurehead’ apresenta-se com um enigma verbal: “Sharp and open, leave me alone.” O que é afiado e aberto? Uma pessoa? Um canivete? É com um canivete que pedimos que nos deixem em paz? Que paz será essa? Ou isto é somente uma fantasia nocturna, ilegível como uma gárgula, ou um inferno barulhento, ou a maldição de uma insónia? E o final, “I will never be clean again”, que polução ou poluição é esta? “Clean” no sentido de “limpo” ou de “puro”? Conceito físico ou moral? E o que é que aconteceu para ficarmos com uma mancha indelével?

‘Cold’, um tema fortíssimo, garante-nos que “eyes like ice don’t move”, dois substantivos líricos reduzidos à imobilidade. E quando chegamos ao tema “Pornography”, adequado a uma ficção labiríntica de David Lynch, que pornografia não-explícita é esta, que carapaça indistinta afoga as vozes com vozes, rasura ruídos com ruídos? E que dizer da referência a uma doença inominada, seguida da injunção “find a cure”?

P.S. - O disco foi aqui ouvido

 


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