Pedro Mexia no Expresso (dia 20 deste mês)
Pornografia
Os Cure tendem a ver os objectos
como aguarelas que se desfazem
19 março 2026 22:57
Apornografia ajuda. Não a
carnavalização da anatomia e do desejo, mas uma outra forma de trazer à luz o
obsceno. Com tanta alegria oficial, exibicionismo, hedonismo, já poucos se
atrevem a enfrentar o sentimento trágico da vida. Seja a melancolia e o luto,
seja a confusão, o medo, o desespero. Isso constitui hoje uma espécie de
pornografia, porque propõe uma imagem alternativa, admite que não somos
fantásticos, que o mundo nos decepciona, que o sofrimento é a única certeza.
Não sei porque é os Cure intitularam o seu quarto álbum “Pornography”, mas
admito que fosse para opor esse discurso “pornográfico”, o da tragédia, à
pornografia da felicidade.
“Seventeen Seconds” (1980),
“Faith” (1981) e “Pornography” (1982), os álbuns mais consensuais da banda,
formam uma trilogia de música depressiva, mais do que deprimente. Porque o
inegável negativismo destes discos não deixa em baixo quem os ouve; é mais provável
que quem os ouve procure a pornografia do sofrimento, mais do que a pornografia
da felicidade, fazendo com que as canções funcionem como empatia e companhia.
Os saturninos são estóicos, mas não é grande sacrifício suportar o gelo quando
se é esquimó.
“Pornography”, álbum de 1982 da
banda The Cure
“Pornography” foi o álbum que
mais ouvi nos últimos meses. Podia alegar, e alego, que gosto das melodias e
harmonias dos Cure, da dinâmica instrumental, da conjugação entre o baixo
ominoso e a percussão intensa, da reverberação atmosférica, dos devaneios
vocais. Mas aprecio sobretudo a nitidez desfocada dessas canções, à imagem da
fotografia na capa do álbum. Como é que uma imagem desfocada pode ter nitidez?
Isso é como perguntar como é que um objecto pode ser representado pelo
impressionismo, o expressionismo, o cubismo, etc. Além da materialidade
reconhecível das coisas, há uma distorção propositada que imita a maneira como
um “eu” individual vê um objecto. E os Cure tendem a ver os objectos como
aguarelas que se desfazem.
O catálogo da banda é um catálogo
de pesadelos ou projecções. Quando a primeira canção de “Pornography” começa,
memoravelmente, “It doesn’t matter if we all die”, toda a gente estranha o “it
doesn’t matter”; mas a noção de que vamos todos morrer, isso não nos apoquenta,
continuamos como se não importasse. Será aquele “if we all die” a consequência
de uma acção específica e evitável? Mas então o “it doesn’t matter” é niilismo
ou truísmo? Enquanto ‘One Hundred Years’ e ‘A Short Term Effect’ descrevem as dores
do mundo, à Schopenhauer, e o efeito dessas dores, a marcial e inquietante ‘The
Hanging Garden’ desvirtua uma das “maravilhas da Antiguidade” (os jardins
suspensos de Babilónia), deambulando entre uma mascarada onírica e animalesca.
E no fim podemos imaginar que “hanging” vem de “forca” ou “cadafalso”, que
estivemos no “jardim dos enforcamentos”. Em ‘Siamese Twins’, por sua vez, o
verso “I chose an eternity of this”, acentua a existência de escolhas, mesmo
quando negamos que sejam escolhas, e a canção não progride musicalmente, como
se fosse um castigo feito de imagens. A extraordinária ‘The Figurehead’
apresenta-se com um enigma verbal: “Sharp and open, leave me alone.” O que é
afiado e aberto? Uma pessoa? Um canivete? É com um canivete que pedimos que nos
deixem em paz? Que paz será essa? Ou isto é somente uma fantasia nocturna,
ilegível como uma gárgula, ou um inferno barulhento, ou a maldição de uma
insónia? E o final, “I will never be clean again”, que polução ou poluição é
esta? “Clean” no sentido de “limpo” ou de “puro”? Conceito físico ou moral? E o
que é que aconteceu para ficarmos com uma mancha indelével?
‘Cold’, um tema fortíssimo,
garante-nos que “eyes like ice don’t move”, dois substantivos líricos reduzidos
à imobilidade. E quando chegamos ao tema “Pornography”, adequado a uma ficção
labiríntica de David Lynch, que pornografia não-explícita é esta, que carapaça
indistinta afoga as vozes com vozes, rasura ruídos com ruídos? E que dizer da
referência a uma doença inominada, seguida da injunção “find a cure”?
P.S. - O disco foi aqui ouvido
Sem comentários:
Enviar um comentário